quarta-feira, 16 de abril de 2014

Cerrado do Amapá pode se tornar nova fronteira agrícola

O avanço da fronteira agrícola na Amazônia sempre traz preocupações devido a seu histórico quase sempre carregado de fortes impactos negativos. 

 É necessário um grande cuidado e controle no expansão da atividade, e a iniciativa de um  zoneamento ajudará o estado a melhorar seus meios de atuação, garantindo uma atividade  econômica que possa ser sustentável.

Depois do Tocantins, o Amapá desponta como nova fronteira agrícola na região Norte do país. Com boas condições climáticas e solo fértil, o Cerrado amapaense tem despertado o interesse de pequenos e médios produtores e até de grandes grupos vindos de regiões tradicionais.
A localização estratégica do Estado e a ampliação do porto de Santana pela Companhia Norte de Navegação e Portos (Cianport) representam outro atrativo para os agricultores, sobretudo de Mato Grosso, interessados em escoar parte da safra de grãos pelo rio Amazonas como alternativa para reduzir custos de logística. O avanço do agronegócio, porém, preocupa o governo. As terras para plantio são limitadas e fazem divisa com a Floresta Estadual do Amapá (Flota).
Os primeiros plantios de soja na região foram em 2001 e envolviam apenas 200 hectares. A chegada de produtores com capacidade de investimento e tecnologia há dois anos mudou o cenário.
De 2012 para 2013, a área plantada com grãos passou de 2,4 mil para 10 mil hectares, enquanto a produção de grãos passou de 7,6 mil toneladas para 25 mil toneladas no período, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Considerando apenas a soja, a área saiu de 1,6 mil hectares em 2012 para 6 mil hectares ano passado – a produção avançou de 4,2 mil toneladas para 15 mil toneladas no mesmo período. Ainda que tenha sido um marco para o Estado, é quase nada quando se pensa na área e na produção do Brasil.
A Embrapa estima que em 2014 a área plantada com grãos possa chegar a 20 mil hectares. Projeções para daqui a 20 anos mostram que a área deve atingir o potencial máximo, com 200 mil hectares. Hoje, as áreas de Cerrado aptas a cultivos correspondem a 932 mil hectares ou 6,5% do território do Amapá. “Desses quase um milhão, temos que descontar 50% de áreas de preservação permanente e 140 mil que pertencem a uma empresa japonesa que planta eucalipto”, explica o analista da Embrapa Amapá, Gustavo Spadotti Castro.
O potencial limitado, contudo, não tem sido um fator inibidor. Um levantamento realizado pela Embrapa com 15 dos principais produtores do Estado revela que 47% têm mais de 30 anos de experiência no setor. A maioria, inclusive, tem como origem Estados com larga tradição no agronegócio, como Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.
O Cerrado amapaense também chamou a atenção de grandes empresas. Recentemente, representantes da Sperafico e da Coopave l sondaram analistas da Embrapa sobre as peculiaridades da região. O aumento da procura, por outro lado, levou a uma valorização das terras. Há dez anos, explica Castro, um hectare custava R$ 50. Em 2011, já tinha pulado para R$ 500. “Hoje, não sai por menos de R$ 3 mil nos melhores lugares”, diz.
“As perspectivas são positivas para o agronegócio no Amapá. Há uma demanda crescente por conhecimento e tecnologia”, afirma o pesquisador-chefe da Embrapa, Jorge Yared, que aponta o porto de Santana como um diferencial para empresas interessadas no mercado externo. O governo do Estado, por exemplo, calcula que a rota pelo Rio Amazonas proporcionaria uma redução de 30% nos custos de frete para produtores de Mato Grosso. O Estado exporta hoje 70% da produção pelos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Vitória (ES). De acordo com dados do Instituto mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), seria possível transferir 50% dessa carga com a viabilização dos portos no Norte, incluindo Santana.

Apesar do otimismo, Yared diz que o aumento da produtividade do setor primário amapaense ainda depende do avanço do Estado na solução de problemas como a distribuição de terras, a situação fundiária e o licenciamento ambiental. “Uma coisa está amarrada à outra. É importante para os produtores, inclusive, para quem quer comercializar fora, ter esses aspectos legalizados”.
Por isso o governador Camilo Capiberibe (PSB) deve apresentar neste mês um zoneamento ecológico do Cerrado. Com as informações detalhadas, pretende mapear as áreas de preservação e as que de fato podem ser usadas para o plantio de grãos. “Até porque há uma expectativa de que, além da venda de commodities, o agronegócio possa agregar valor e movimentar outras cadeias produtivas”, ressalta o pesquisador.
A despeito dos benefícios, Capiberibe teme o avanço da agricultura sobre as florestas dado o potencial limitado de terras do Cerrado e o fato das duas regiões serem fronteiriças. O Amapá é o Estado mais preservado do Brasil, com 73% de áreas de conservação ambiental e terras indígenas. “É possível conviver floresta e agronegócio? A resposta Mato Grosso fornece para gente. O histórico de ocupação de terras no país na expansão da fronteira agrícola se dá contra os interesses ambientais e dos pequenos proprietários. Por isso nosso projeto de concessões florestais enfrenta tanta resistência”, afirma o governador sobre a proposta de conceder entre 1 milhão e 1,5 milhão de hectares da floresta amazônica para uma empresa regularizar a extração madeireira.
Capiberibe ressalta que o projeto vai ajudar o Estado a gerar emprego e renda para a população. A área de concessão florestal do Amapá não será licitada toda de uma vez, mas sim ao longo de dez anos, em lotes de 100 mil hectares anuais. A empresa vencedora da licitação fará o plano de manejo e poderá explorar a região por um período de até 40 anos. Cada lote pode gerar uma receita de R$ 3,5 milhões anuais, chegando a R$ 35 milhões no décimo ano.
Os recursos, segundo o governador, serão distribuídos entre o Estado, municípios e um fundo de desenvolvimento florestal, para atender as comunidades atingidas. Em dez anos, deve gerar uma receita de R$ 192,5 milhões. Trata-se de um montante significativo para um Estado que, em 2013, teve receitas tributárias próprias estimadas em R$ 735,2 milhões dentro de um orçamento de R$ 4 bilhões, composto principalmente por transferências federais (R$ 3,2 bilhões).
Em novembro foi publicado um pré-edital de licitação. O documento definitivo deve ser lançado no fim de abril em meio a resistência de deputados estaduais que questionam a legalidade da Flota desde que o governo anunciou a proposta de concessões florestais. Aprovada de forma unânime em 2006, a lei que criou a floresta estadual quase foi revogada em fevereiro pela Assembleia Legislativa.
A votação de um projeto de revogação, de autoria do deputado Eider Pena (PSD), foi adiada por recomendação do Ministério Público. O parlamentar alega que há inconstitucionalidades no projeto. Diz, por exemplo, que seis mil pessoas podem ser expulsas da floresta com o início do manejo madeireiro. A diretora-presidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Ana Euller, contesta os números apresentados pelo deputado.
“Estudos declaratórios mostram que há 400 famílias. E como moram lá desde antes da criação, vão ter o direito de ficar na floresta, conforme determina a própria lei”, afirma Ana, que vê motivações eleitorais na oposição dos parlamentares. “Ninguém se preocupou com os pequenos agricultores há oito anos quando a Flota foi criada. Questionam agora que temos recursos e planos de manejo e de regularização fundiária”, acrescenta. A floresta engloba uma área de quase três milhões de hectares. Passa por 10 dos 16 municípios amapaenses. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Amazônia não vai mais virar savana, diz agora o IPCC

Essa era uma das principais previsões feitas no relatório anterior, de 2007
Fonte : ORM News 26 de março 2014
Há pelo menos uma boa notícia, se é que se pode dizer assim, no novo relatório do IPCC (o painel científico da ONU sobre mudanças climáticas): a Amazônia não corre mais o risco de virar uma savana até o final do século.
Essa era uma das principais previsões feitas no relatório anterior, de 2007, do IPCC. Na época, modelos climáticos apontavam que o aumento da temperatura e as mudanças climáticas levariam a uma nova configuração da vegetação em busca de um reequilíbrio com o clima diferente. Assim, em vez de permanecer como uma floresta densa chuvosa, a Amazônia responderia apresentando um menor porte, menor diversidade, menor biomassa — mais semelhante com o nosso cerrado. Isso acabou conhecido como savanização e foi um dos pontos de maior crítica ao IPCC.
Sete anos depois, e com mais estudos disponíveis, o cenário ficou menos pessimista. É o que se pode concluir de uma versão preliminar do relatório completo do grupo de trabalho 2 do IPCC (que fala sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação) que vazou na internet nos últimos dias. O material será chancelado no final da semana em plenária do IPCC em Yokohama, no Japão. 

Um importante projeto que merece registro e divulgação


Pesquisadores vão mapear castanhais nativos e caracterizar sistemas de produção extrativista da castanha-do-brasil

Fonte: Ecodebate 15, 2014 
Castanheira nas redondezas de Marabá
Castanheira nas redondezas de Marabá. Foto: Wikipedia
Bela e imponente, a castanheira-do-brasil (Bertholletia excelsa) é uma das árvores-símbolo da Amazônia, e tem merecido atenção especial da pesquisa devido à sua importância social, ecológica e econômica. Com o objetivo de conhecer melhor diversos aspectos relacionados à castanheira e ao seu ambiente natural, um grupo de pesquisadores está iniciando um projeto audacioso, que pretende mapear e modelar a ocorrência de castanhais nativos da Amazônia brasileira, por meio de geotecnologias, e caracterizar as relações sociais e econômicas de sistemas de produção, a fim de contribuir para o fortalecimento da cadeia de valor da castanha-do-brasil.
O projeto conta com nome e apelido: Mapeamento de Castanhais Nativos e Caracterização Socioambiental e Econômica de Sistema de Produção de Castanha-do-Brasil na Amazônia ou, simplesmente, MapCast. O trabalho contempla atividades em seis Estados da região norte – Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia – e em um do centro-oeste, o Mato Grosso. Atualmente não existe um mapa geral da ocorrência da castanheira na Amazônia brasileira e os estudos sobre a distribuição espacial dos castanhais podem ser cruciais para a definição de estratégias de manejo e conservação da espécie.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Despedida de Lúcio Flávio Pinto do Yahoo


Registro aqui a perda de mais um importante espaço dedicado a discussão da Amazônia em mídia nacional., através de um interlocutor local privilegiado pelo acúmulo do conhecimento do tema ao longo de toda a sua trajetória profissional coroada de êxitos e reconhecimento.
Trata-se do fim da coluna de artigos do Lúcio Flavio Pinto no sítio do Yahoo chamado de Cartas da Amazônia.
Talvez pelas atribulações diárias do seu dia a dia profissional, aliada a luta constante contra os processos judiciais que lhe tentam calar a voz, o se sítio próprio com a transcrição do seu "Jornal Pessoal" não é atualizada desde setembro do ano passado. Uma pena pois deixa seus leitores/admiradores de fora de Belém, onde o jornal é impresso, com poucas chances de acessarem seus interessantes textos, que sempre trazem uma visão diferenciada do senso comum das grandes mídias sobre a situação regional.
Transcrevo abaixo o último artigo do sítio do Yahoo:

Vai-se a flor, fica o perfume


Por  | Cartas da Amazônia – sáb, 29 de mar de 2014
Não só pelo total de 13 integrantes e cobertura territorial plena, a sucursal seria inovadora por outro elemento: ela teria direito a enviar matérias em texto final para São Paulo, que respeitaria esse conteúdo. A sede podia definir a forma de aproveitamento e corrigir eventuais erros de redação das matérias, mas não mudá-las.

DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA: CRESCEU?


PAULO ARTAXO
Um dos grandes “sucessos” do país na área ambiental e de mudanças climáticas é o forte decréscimo no desmatamento da Amazônia, que caiu de 27.772 Km², em 2004, para 4.571 Km², em 2012. Recentemente, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o MMA (Ministério do Meio Ambiente) anunciaram que a taxa de desmatamento havia subido para 5.843 Km², em 2013 (agosto 2012 a julho 2013), um aumento de 28%. Importante lembrar que esse aumento recente é pequeno em área absoluta. Ou seja, 1.272 Km2 não é muito, principalmente se comparado à redução já realizada.
Um dado curioso é que se você pergunta a diferentes grupos quais políticas públicas foram responsáveis pela forte queda no desmatamento de 2004 a 2012, você terá as respostas mais díspares possíveis. O governo atribui a queda à maior fiscalização e maior controle ao financiamento bancário em áreas desmatadas. Algumas ONGs atribuem a questões de mercado (preços de commodities, por exemplo), ou mesmo a uma não necessidade de abertura de novas áreas à agricultura na Amazônia, com melhor aproveitamento das áreas já desmatadas. Quem está com a “verdade”? Provavelmente, a resposta correta é: a combinação linear de vários desses argumentos.

terça-feira, 25 de março de 2014

Homenagem a Armando Mendes


Retorno as postagens neste espaço com uma nota sobre alguém que me é muito caro, o Prof. Armando Mendes, que voltou para a casa do Pai em Junho de 2012 e hoje 25/03/2014 será homenageado no lançamento do Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional Edição 2014 no Ministério da Integração Nacional - MI e no dia 31 de março no auditório do BNDES no Rio de Janeiro.
Abaixo a divulgação do sítio do MI e a programação do evento no DF.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Já faz muito tempo que não passo por aqui! As muitas atividades e o cansaço ao final do dia tem me impedido de atualizar. Sinto falta e agora pretendo retomar.
Continuarei com o assunto principal, mas divulgarei também assuntos relacionados a empresas, econômico e gestão de forma mais geral, conseqüência de minhas novas atividades. Esses tópicos, em minha opinião enriquecerão  o blog.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Artigo do Cortella

Fonte: 
Portal HSM 
17/10/2012

Depois de longa ausência, um artigo do Cortela.


Vida e carreira: um equilíbrio possível?

Gosto demais do que um dia escreveu o britânico Beda, o Venerável, lá no século VIII: "Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe; não praticar o que se ensina; não perguntar o que se ignora". 


Por isso, uma carreira a ser "turbinada" exige a capacidade de "ensinar o que se sabe", isto é, ter permeabilidade e ser reconhecido como alguém que reparte competências, de modo a fortalecer a equipe e demonstrar ambição (querer mais) em vez de ganância (querer só para si, a qualquer custo). 

É necessário também "praticar o que se ensina", de forma a deixar clara a coerência de postura, o equilíbrio entre o dito e o feito, e a disposição para assumir com segurança aquilo que adota como correto. 

Por fim, o mais importante, "perguntar o que se ignora", pois corre perigo aquele ou aquela que não demonstrar que está sempre em estado de atenção (em vez de estado de tensão) para ampliar capacidades e assumir a humildade (sem subserviência) de compreender e viver aquilo que Sócrates, na Grécia clássica, nos advertiu: "só sei que nada sei", ou seja, só sei que nada sei por inteiro, só sei que nada sei que só eu saiba, só sei que nada sei que não possa ainda vir a saber. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

BNDES promove seminário no Nordeste para debater desenvolvimento regional. E a Amazônia?


Mais uma vez o BNDES demonstra seu entendimento de que somente a região nordeste merece atenção e cuidados em relação ao planejamento, ações  e eventos voltados para a temática do desenvolvimento regional no Brasil. A constatação disso se revela, entre outras coisas, observando a participação do presidente do BNDES Luciano Coutinho nas reuniões do Conselho Deliberativo da SUDENE, reuniões relativamente frequentes com  vários governadores do nordeste juntos,  com a bancada Federal do Nordeste, além das visitas dele aos estados nordestino. Já em relação a Amazônia, embora o BNDES possua assento no CONDEL da SUDAM, o presidente ou mesmo um diretor nunca participam. Reunião com governadores ou bancada federal também nunca houve. O governador do norte para reunir com o presidente do BNDES, só se deslocando ao Rio de Janeiro.
A ausência (e a falta de vontade em instalar uma) de uma representação do BNDES na Amazônia, contribui, e muito, para esse quadro de desvalorização do relacionamento da instituição com a região, até pela falta de uma compreensão na identificação dos interlocutores locais para alavancar o diálogo. 
Outro componente forte é o desinteresse pelo desenvolvimento da região, pelo menos nos moldes da economia tradicional existente. O discurso seguido é que se precisa criar uma nova economia para a região, que seja plenamente sustentável, o que eu concordo em gênero, número e grau. Porém  essa nova economia ainda não existe e é necessário um grande esforço de planejamento do desenvolvimento e a participação efetiva do estado e suas instituições pensantes (aí o BNDES é fundamental), o que ainda não existe. Ai vemos a acomodação que gera o imobilismo. Enquanto isso a economia real e tradicional existente na Amazônia precisa atender os 25 milhões de pessoas que aqui habitam e que precisam de da presença de um órgão financiador de projetos estruturantes que melhorem qualitativamente essa economia e faça com que ela possa caminhar em direção a sustentabilidade desejada por todos.
  
Fonte: BNDES 26/09/2012
O BNDES promove nesta sexta-feira, 28, o seminário Desenvolvimento regional: avaliação, desafios e perspectivas para o Nordeste. O evento integra as comemorações pelo 60 anos do Banco, completados no último dia 20 de junho, e acontece no auditório do JCPM Trade Center, no Recife.
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, participa da mesa de encerramento do seminário, junto com o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, e o presidente do BNB, Ary Joel Lanzarin. Também foram convidados os nove governadores de Estado da Região. O evento tem início às 8h45, com o diretor da Área Industrial do BNDES, Julio Ramundo, o diretor do BNB Stelio Gama Junior e o presidente da FIEPE, Jorge Corte Real. Ao longo do dia, quatro mesas abordarão temas como criatividade e inovação, superação da pobreza, financiamento para a infraestrutura e perspectivas para o Nordeste.

Soja e florestas no Arco de Desmatamento do Brasil: Uma trégua temporária?



Estando correta a análise abaixo, seria salutar seguir de uma forma mais sistema as indicações de, principalmente, novas políticas de incentivos ao uso eficiente de áreas degradadas e e aplicação de medidas anti-desmatamento. Assim conseguiríamos minimizar um  pouco  o conflito entre a exploração do uso dos recursos e a conservação do maio ambiente, sem esquecer é claro a necessidade contínua de forte fiscalização nas áreas de uso intenso da monocultura, para também reduzir e controlar os problemas causados pelos insumos utilizados, de maneira especial os agrotóxicos.
Fonte: IPAM 17/09/2012
Análise de Christine Padoch para o site do CIFOR sobre estudo do IPAM.
Com a demanda global por commodities como o óleo de palma, a soja e a carne rapidamente aumentando e a oferta de terras utilizáveis diminuindo, as florestas conseguirão sobreviver? Será que os crescentes bilhões de habitantes do planeta poderão ser bem alimentados, bem vestidos e abrigados sem que se destruam as florestas tropicais? Um novo artigo escrito por cientistas de diversas instituições dos Estados Unidos e do Brasil sugere que ações que promovem o uso mais eficiente de terras agrícolas juntamente com medidas anti-desmatamento - podem ter dado resultados positivos onde já foi a área mais notória de perda de florestas: o infame "Arco do Desmatamento" na fronteira sul da Amazônia brasileira.
Ao focar seus estudos nas tendências mais recentes em produção de soja e mudanças na cobertura florestal no estado do Mato Grosso, Marcia Macedo e seus colaboradores mostram que a relação aparentemente inevitável entre crescimento agrícola e perda da floresta pode ser quebrada, e as metas de preservação ambiental, de mais comida, fibras e combustível podem ser alcançadas simultaneamente.
Os autores focaram sua pesquisa no Mato Grosso no período 2006-2010, quando o estado fronteiriço reduziu notoriamente sua elevada taxa de desmatamento para apenas 30% do que tinha sido ao longo da década anterior. Nos mesmos  cinco anos, a produção agrícola no Mato Grosso alcançou altas na produtividade sem precedentes.
Macedo e seus colaboradores utilizaram a combinação de dados de sensoriamento remoto e informações estatísticas sobre mudanças na cobertura florestal e produção agrícola recolhidos pelo Governo brasileiro. Eles descobriram que enquanto 78% dos aumentos na produção de soja em 2006-2010 foram devido à expansão agrícola em novas áreas (Mato Grosso lidera todos os Estados brasileiros em produção de soja), 91% daquela expansão ocorreu integralmente em terras que já haviam sido desmatadas anteriormente, em sua maioria antigas pastagens. Outros 22% do aumento em produção de soja foi devido ao maior rendimento por área. Assim, a expansão não exigiu novas incursões sobre as florestas.
Os autores também destacam que o declínio do desmatamento “coincide com o colapso dos mercados de commodities”, e que no mesmo período políticas para redução do desmatamento foram implementadas. Esta última mudança sugere que não foi apenas a crise financeira que estimulou uma desaceleração no desmatamento . De fato, a rentabilidade no setor de soja do Mato Grosso depois voltou para níveis anteriores a 2006, mas o desmatamento continuou a cair, indicando que "medidas anti-desmatamento podem ter influenciado o setor agrícola". Estes dados são muito promissores de fato, mas eles também levam a diversas questões importantes que os autores tentam abordar.
Uma das preocupações é o "vazamento", ou a possibilidade de que o desmatamento evitado em Mato Grosso possa simplesmente ter se transferido para outros lugares. Macedo et al. encontraram poucas evidencias de “vazamento direto da expansão da soja” em regiões altamente ameaçadas próximas do Cerrado do Mato Grosso, e durante aquele período os níveis de desmatamento em diversas áreas vizinhas de estados ricos em florestas da Amazônia brasileira também caíram. Mas os autores alertam que não se pode descartar a possibilidade de que não tenham sido detectadas “mudanças por uso indireto da terra e fuga para regiões mais distantes”. 
A outra questão é, claro: será que a agricultura poderá se expandir sem mais desmatamentos no Mato Grosso e em outros estados? De acordo com os autores, algumas mudanças recentes sugerem que provavelmente sim. O Governo brasileiro tem investido bastante em monitoramento e na aplicação de medidas anti-desmatamento, e tanto o governo como alguns grupos industriais têm “criado desincentivos para a expansão floresta adentro”. Mas para manter as reduções no desmatamento em meio à expansão da economia agrícola no Brasil, os autores advertem, que serão necessárias novas políticas de incentivos ao uso eficiente de áreas degradadas, especialmente na medida em que o desenvolvimento da infraestrutura da região torna as regiões de florestas remanescentes mais acessíveis, e que as novas tecnologias tornam seu uso mais lucrativo.
As advertências dos autores são oportunas.  Relatórios mais recentes da região indicam que um novo aumento nas taxas de desmatamento pode já estar em curso, e os efeitos da controversa revisão do Código Florestal proposta no Brasil permanecem incertos. É difícil prever quais serão as pressões do  próximo  boom no preço das commodities agrícolas sobre as  áreas de floresta remanescente  nos trópicos.     
Está claro, entretanto, que as sociedades e governos terão que considerar cuidadosamente estratégias e incentivos políticos apropriados, específicos, e multifacetados se pretendem  equilibrar as pressões econômicas com a necessidade de preservar as florestas e seus múltiplos serviços. Neste artigoMacedo et al.  foram bem sucedidos em mostrar que esse equilíbrio pode ser alcançado em pelo menos um lugar (e por enquanto).
Artigo originalmente publicado no site do CIFOR
Mais informações:
Macedo, M.N., DeFries, R.S., Morton, D.C., Stickler, C.M., Galford, G.L. and Shimabukuro, Y.E. 2012Decoupling of deforestation and soy production in the southern Amazon during the late 2000s. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), doi: 10.1073/pnas.1111374109
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*Christine Padoch é antropóloga e, atualmente, diretora do Programa Forests and Livelihoods do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (CIFOR – sigla em inglês). Passou mais de 35 anos realizando pesquisas sobre os padrões de manejo florestal relacionados a pequenos produtores, agricultura e agroflorestal nos trópicos úmidos, principalmente na Amazônia e no Sudeste Asiático. Foi curadora do Instituto de Botânica Econômica do New York Botanical Garden. Padoch é Ph.D. em Antropologia pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.