sábado, 5 de setembro de 2026

Dia da Amazônia: Do Mito Singular à Força Plural das Nossas Amazônias

Hoje, 5 de setembro, celebra-se o Dia da Amazônia. A data marca um fato histórico: foi nesse dia em 1850 que D. Pedro II criou a Província do Amazonas ao desmembrá-la do Grão-Pará. A celebração desse dia costuma suscitar homenagens protocolares, mas precisa, sobretudo, provocar uma reflexão mais profunda: de qual Amazônia estamos falando e a partir de qual olhar?

O Olhar de Fora: Mitos, Vazio e Reducionismo

Historicamente, a Amazônia tem sido contada por quem não pisa o seu chão. De fora, seja das capitais do Centro-Sul ou dos fóruns internacionais, e embora já se observe melhoras, a região ainda oscila entre dois olhares extremos e estéreis: o "inferno verde" intocado a ser domado, explorado e consumido ou o "santuário intocável", um imenso almoxarifado de carbono desprovido de gentes.

Persiste o mito do "vazio demográfico", herança de políticas que conceberam o território como terra sem homens para homens sem-terra, justificando grandes projetos de infraestrutura pensados de cima para baixo, que rasgaram a floresta sem integrar as economias locais nem emancipar seus habitantes. Vê-se a floresta pela copa das árvores, esquecendo que sob ela vivem quase 30 milhões de brasileiros com aspirações legítimas de saúde, saneamento, mobilidade, renda e cidadania.

O Olhar de Dentro: Não Existe Amazônia, Existem Amazônias

Quem vive, estuda e constrói o dia a dia desta região sabe: a Amazônia não cabe no singular. Falar em "Amazônias", no plural, é um imperativo ético, conceitual e econômico.

Bertha Becker já nos alertava para a diversidade e a urbanidade dessa fronteira viva; Carlos Walter Porto-Gonçalves desvendou a multiplicidade de territorialidades e conflitos em disputa; Paula Saldanha e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) registraram a imensa pluralidade sociocultural dos nossos povos. Mais recentemente, os diagnósticos do projeto Amazônia 2030 consolidaram essa compreensão ao tipificar as "Cinco Amazônias", distinguindo as dinâmicas da floresta densa das áreas desmatadas sob pressão agropecuária, das zonas de transição, das calhas dos grandes rios e, fundamentalmente, das nossas cidades, onde vive mais de 70% da população regional.

Não há homogeneidade. Há várzeas e terra firme, transições de cerrado, igapós, centros urbanos pulsantes e comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e outras isoladas. Reduzir essa complexidade a uma única moldura ecológica empobrece o debate e inviabiliza políticas públicas eficazes.

Povos, Resistências e as Vozes Silenciadas

As Amazônias são feitas de carne, osso, memória e resistência. Muito antes das rotas oficiais de exploração, os povos originários manejavam e enriqueciam a biodiversidade da florest, um conhecimento ancestral hoje respaldado pela própria arqueologia e pela botânica contemporânea.

A historiografia tradicional celebrou bandeirantes e navegadores como Pedro Teixeira, que demarcou os limites ocidentais da possessão portuguesa no século XVII. Mas a verdadeira história da região pulsa nos heróis da resistência: na bravura do líder manaó Ajuricaba, que desafiou o jugo colonial até as últimas consequências; e na fúria libertária dos Cabanos, indígenas, negros, mestiços e ribeirinhos que protagonizaram a Cabanagem, uma das lutas populares (vitoriosa por pelo menos quatro anos) mais autênticas e sangrentas das Américas. Reconhecer esses nomes é resgatar o protagonismo de quem não aceitou ser figurante na própria terra.

Descolonizar o Saber e Valorizar o Pensamento Amazônida

A desvalorização da cultura e da capacidade técnica local é outro traço que precisa ser superado. Durante décadas, ignorou-se que a sabedoria das parteiras, mestres carpinteiros navais, extrativistas e pescadores, constitui alta tecnologia social adaptada ao bioma.

Da mesma forma, a produção científica e acadêmica dos centros de pesquisa locais,  como o Museu Paraense Emílio Goeldi, o INPA e as universidades públicas da região, por muito tempo foi tratada como periférica nos grandes centros decisórios. O futuro do desenvolvimento sustentável, da bioeconomia e das soluções de infraestrutura adequadas ao território depende, essencialmente, da valorização e incorporação dos pesquisadores, economistas, engenheiros e demais pensadores que conhecem as especificidades do solo, do clima e da dinâmica social amazônica.

O 5 de setembro não é data para lamentos nem para contemplação idílica. O sentimento de Amazonidade traduz-se no orgulho de pertencer a esse complexo ecossistema humano e natural, exigindo que o país reconheça a inteligência, a história e a autonomia das Amazônias.

Desenvolver a nossa região não é replicar modelos alheios nem transformá-la em redoma: é conservar a floresta e promover a prosperidade das pessoas que aqui vivem, com dignidade econômica, base científica e respeito intransigente às nossas raízes ancestrais.

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