Hoje, 5 de setembro, celebra-se o Dia da Amazônia. A data marca um fato histórico: foi nesse dia em 1850 que D. Pedro II criou a Província do Amazonas ao desmembrá-la do Grão-Pará. A celebração desse dia costuma suscitar homenagens protocolares, mas precisa, sobretudo, provocar uma reflexão mais profunda: de qual Amazônia estamos falando e a partir de qual olhar?
O Olhar de Fora: Mitos,
Vazio e Reducionismo
Historicamente, a
Amazônia tem sido contada por quem não pisa o seu chão. De fora, seja das
capitais do Centro-Sul ou dos fóruns internacionais, e embora já se observe
melhoras, a região ainda oscila entre dois olhares extremos e estéreis: o
"inferno verde" intocado a ser domado, explorado e consumido ou o
"santuário intocável", um imenso almoxarifado de carbono desprovido
de gentes.
Persiste o mito do
"vazio demográfico", herança de políticas que conceberam o território
como terra sem homens para homens sem-terra, justificando grandes projetos de
infraestrutura pensados de cima para baixo, que rasgaram a floresta sem
integrar as economias locais nem emancipar seus habitantes. Vê-se a floresta
pela copa das árvores, esquecendo que sob ela vivem quase 30 milhões de
brasileiros com aspirações legítimas de saúde, saneamento, mobilidade, renda e
cidadania.
O Olhar de Dentro: Não
Existe Amazônia, Existem Amazônias
Quem vive, estuda e
constrói o dia a dia desta região sabe: a Amazônia não cabe no singular.
Falar em "Amazônias", no plural, é um imperativo ético, conceitual e
econômico.
Bertha Becker já nos
alertava para a diversidade e a urbanidade dessa fronteira viva; Carlos Walter
Porto-Gonçalves desvendou a multiplicidade de territorialidades e conflitos em
disputa; Paula Saldanha e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
registraram a imensa pluralidade sociocultural dos nossos povos. Mais
recentemente, os diagnósticos do projeto Amazônia 2030 consolidaram essa
compreensão ao tipificar as "Cinco Amazônias", distinguindo as
dinâmicas da floresta densa das áreas desmatadas sob pressão agropecuária, das
zonas de transição, das calhas dos grandes rios e, fundamentalmente, das nossas
cidades, onde vive mais de 70% da população regional.
Não há homogeneidade. Há
várzeas e terra firme, transições de cerrado, igapós, centros urbanos pulsantes
e comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e outras isoladas. Reduzir
essa complexidade a uma única moldura ecológica empobrece o debate e
inviabiliza políticas públicas eficazes.
Povos, Resistências e as
Vozes Silenciadas
As Amazônias são feitas
de carne, osso, memória e resistência. Muito antes das rotas oficiais de
exploração, os povos originários manejavam e enriqueciam a biodiversidade da
florest, um conhecimento ancestral hoje respaldado pela própria arqueologia e
pela botânica contemporânea.
A historiografia
tradicional celebrou bandeirantes e navegadores como Pedro Teixeira, que
demarcou os limites ocidentais da possessão portuguesa no século XVII. Mas a
verdadeira história da região pulsa nos heróis da resistência: na bravura do
líder manaó Ajuricaba, que desafiou o jugo colonial até as últimas
consequências; e na fúria libertária dos Cabanos, indígenas, negros, mestiços e
ribeirinhos que protagonizaram a Cabanagem, uma das lutas populares (vitoriosa por
pelo menos quatro anos) mais autênticas e sangrentas das Américas. Reconhecer
esses nomes é resgatar o protagonismo de quem não aceitou ser figurante na
própria terra.
Descolonizar o Saber e
Valorizar o Pensamento Amazônida
A desvalorização da
cultura e da capacidade técnica local é outro traço que precisa ser superado.
Durante décadas, ignorou-se que a sabedoria das parteiras, mestres carpinteiros
navais, extrativistas e pescadores, constitui alta tecnologia social adaptada
ao bioma.
Da mesma forma, a
produção científica e acadêmica dos centros de pesquisa locais, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, o INPA e
as universidades públicas da região, por muito tempo foi tratada como
periférica nos grandes centros decisórios. O futuro do desenvolvimento
sustentável, da bioeconomia e das soluções de infraestrutura adequadas ao
território depende, essencialmente, da valorização e incorporação dos
pesquisadores, economistas, engenheiros e demais pensadores que conhecem as
especificidades do solo, do clima e da dinâmica social amazônica.
O 5 de setembro não é
data para lamentos nem para contemplação idílica. O sentimento de Amazonidade
traduz-se no orgulho de pertencer a esse complexo ecossistema humano e natural,
exigindo que o país reconheça a inteligência, a história e a autonomia das
Amazônias.
Desenvolver a nossa
região não é replicar modelos alheios nem transformá-la em redoma: é conservar
a floresta e promover a prosperidade das pessoas que aqui vivem, com dignidade
econômica, base científica e respeito intransigente às nossas raízes
ancestrais.
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