Repensar a economia. O desafio do século XXI.
Fonte: Portal Ecodebate17/04/2012“Não se trata de contestar o crescimento econômico por si só. Trata-se de fazer a pergunta que a ciência econômica habitualmente não faz: crescer para quê, para produzir o quê, para ter qual resultado na sociedade?”, questiona o professor titular do Curso de Economia da Universidade de São Paulo – USP.
Embora tenha sido possível produzir bens de consumo emitindo 21% a
menos de gases de efeito estufa e consumindo 23% menos materiais, o
crescimento econômico mundial foi tão expansivo, nas últimas duas
décadas, que os esforços econômicos e ambientais não surtiram efeito.
Com base nessas informações, e partindo de uma posição moderada, nem
pessimista nem otimista demais, o professor da USP, Ricardo Abramovay
(foto abaixo), destaca que, no atual período de transição para uma
economia de baixo carbono, os desafios para o planeta atingir a
sustentabilidade perpassam por mudanças não só na forma de produzir bens
de consumo e serviço, mas também de repensar a Ciência Econômica.
Essas foram as discussões centrais da palestra que Abramovay ministrou na Unisinos, na última quarta-feira, 12-04-2012, participando do Ciclo de palestras Rio+20, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Apesar de ser favorável ao conceito de economia verde, um dos temas centrais a ser abordado na Rio+20,
ele é enfático: “Reconhecer a importância das inovações tecnológicas
embutidas na ideia de economia verde não significa dizer que a economia verde
e, muito menos o suposto crescimento verde, são capazes de resolver os
problemas do século XXI”. Para ele, a desconfiança que os diferentes
participantes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável
têm em relação à efetividade da economia verde “tem razão de ser”. E
esclarece: “Essa desconfiança só será atenuada caso se consigam associar
as inovações tecnológicas da economia verde – que são importantes e
necessárias, a partir da ideia de limites e luta contra as
desigualdades”.
Antes do evento, Abramovay conversou com IHU On-Line
pessoalmente e falou sobre o que significa repensar a economia e os
desafios intelectuais e políticos que envolvem essa discussão. Segundo
ele, o momento atual exige mudanças decisivas especialmente “nos
propósitos da vida econômica. (…) Para a ciência econômica (a Economics)
o sentido da vida econômica não é algo que deva ser questionado: porque
cada indivíduo vai cuidar de si e o resultado vai ser o melhor para
todo mundo. Isso talvez fosse verossímil em um mundo de três bilhões de
pessoas. Mas em um mundo tão desigual e rumando para 10 bilhões de
habitantes, temos que nos perguntar para que se produz e quais são as
finalidades da vida econômica. É nesse sentido que penso que precisamos
ir além da economia, ou seja, repensar a economia com base nas suas
origens, como uma ciência organicamente integrada à questão do bem viver e da ética.
E não como uma mecânica dos interesses individuais de cuja interação
resultaria, de forma não intencional, não voluntária, maior riqueza e,
portanto, supostamente, maior bem-estar”, esclarece.
O professor também comenta a atuação dos líderes políticos que, preocupados com o crescimento econômico, não estão atentos às questões ambientais.
Em relação aos governos de esquerda e a um projeto que minimize as
desigualdades sociais, ele enfatiza que “as grandes aspirações
emancipatórias que marcam os movimentos socialistas desde o início do
século XIX terão que ser concebidas hoje no âmbito de uma sociedade em
que mercados e empresas privadas terão um papel decisivo e que não será
esvanescente”. Uma discussão profunda, assegura, consiste em “repensar o
mercado, vislumbrar a possibilidade de fazer dele um dos mais
importantes instrumentos de transformação social. Mas não se trata
absolutamente de suprimi-lo, nem imaginar que é possível ter uma
instância exterior ao mercado que o controlasse e que seria o Estado”.
Ricardo Abramovay
é graduado em Filosofia, mestre em Ciência Política e doutor em
Sociologia. É professor titular do curso de Economia da Universidade de
São Paulo – USP. Para acompanhar as publicações do pesquisador, acesse
sua home page abramovay.pro.br, ou pelo Twitter @abramovay.
Confira a entrevista.